Tecnologias de vestir: a um passo do ciborgue?

Desde a sua chegada ao mercado, ainda para um grupo muito reduzido de convidados e a um preço bastante alto (USD 1.500, cerca de R$ 3.600), o Google Glass ganhou a alcunha de um óculos esquisitão. Desengonçado, chamativo e indiscreto, apesar do esforço de Sergey Brin em tentar fazê-lo se tornar um item que confere estilo ao colocar modelos da Diane von Furstenberg para desfilar com os óculos high-tech.

Ao mesmo tempo, rumores anunciavam a chegada dos smartwatches, relógios inteligentes que se conectam com smartphones e medem toda sorte de informação acerca do seu dia a dia. Alguns trazem pedômetros, outros conseguem até monitorar seus batimentos cardíacos, e são feitos para serem de uso continuado, com um acompanhamento quase constante dos seus dados biométricos. É exatamente por isso que são feitos no formato de itens do vestuário, como óculos, relógios de pulso e aparatos que lembram tiaras.

A tendência é do momento, mas a tecnologia não. Há 16 anos acontece o Simpósio Internacional de Computadores de Vestir (ISWC, na sigla em inglês), que neste ano aconteceu em setembro na cidade de Zurique. Mais do que Google Glass, relógios espertinhos e até tênis que monitoram por onde você andou, o Simpósio apresenta outros tipos de tecnologia de vestir, como tecidos inteligentes, que detectam o padrão das dobras criadas pelas suas calças e camisas, afim de tentar identificar problemas nas juntas que você possa estar desenvolvendo.

Os gadgets de vestir podem parecer esquisitos em um primeiro momento, mas fazem parte de uma antiga vontade de tornar algumas tecnologias tão cotidianas quanto a água encanada e a energia elétrica, de forma que possamos utilizá-las sem nem percebermos. Ter uma tela projetada na frente dos olhos através de um óculos diferentão soa tão estranho hoje quanto era antigamente imaginar que carregaríamos nos nossos bolsos verdadeiros computadores, que se conectariam à internet sem a necessidade de fios.

Privacidade e excessos de compartilhamentos

A invasão de privacidade, no entanto, é um problema. O receio de ver a sua intimidade gravada por outrém é tão presente que o Google Glass já foi proibido de ser utilizado em alguns bares e restaurantes, para resguardar a individualidade dos outros consumidores presentes no local. Além do Glass, o Google possui um outro protótipo de tecnologia de vestir, o Google Sneaker, que também levanta questões acerca do excesso de informação compartilhada. A princípio, além de medir quanto de caminhada o usuário realizou em um certo período, o Sneaker postaria automaticamente os locais que você andou, dando check-ins em redes sociais e fazendo atualizações de status no seu perfil do Google+. Será mesmo que é preciso publicar tanta coisa, de forma tão automatizada? Onde fica a sua privacidade de andar por onde quiser sem notificar ninguém?

Esse debate sobre direito à privacidade fica ainda mais intenso depois da denúncia do vigilantismo da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos EUA. O quanto de informações pessoais obtidas por tecnologias vestíveis poderiam ser usadas em situações delicadas ou não autorizadas? Até a Apple, ao lançar o iPhone 5s, precisou frisar inúmeras vezes que as informações coletadas pelo sensor biométrico do aparelho não iriam ser compartilhadas com terceiros, e ainda assim tem muita gente que continua desconfiada. Imagine então o quanto de informações que um gadget vestível poderia repassar a entidades governamentais!

A devassidão da privacidade por falta de cuidado do usuário também é um item a ser considerado. O excesso de compartilhamento de informações na rede, como detalhes de onde você esteve, a que horas, por quanto tempo, fotos e mapas envolvidos, pode ter um impacto negativo na segurança das pessoas, além de criar uma perspectiva social complexa, onde é preciso fazer coisas legais para ter informações bacanas para compartilhar. A esperança é que tais dispositivos não sejam usados apenas para massagear o ego e avisar os amigos sobre onde estamos, mas que possam ser também utilizados para nos ajudar a viver melhor.

Já existem no mercado, apoiados por fundos de financiamento coletivo, aparelhos como o LumoBack, uma cinta que você coloca no peitoral e que permite acompanhar a sua postura ao longo do dia. Quando você dá aquela escorregada na cadeira e passa a ficar com a coluna torta, o gadget dá uma marota vibradinha pra te lembrar de endireitar o corpo. No fim do dia, um aplicativo que sincroniza com o gadget oferece um relatório que ajuda o usuário a buscar alternativas mais ergonômicas. O mercado norte-americano também tem visto um grande sucesso das chamadas ‘fitbands’, pulseiras que monitoram o seu dia a dia para analisar melhor o seu metabolismo e sugerir dietas, exercícios e outras dias para manter a saúde em dia.

Conectados demais, atenção de menos

Se as notificações de emails, redes sociais e ligações que tocam, piscam e vibram no smartphone já são capazes de desconcentrar muita gente, imagine só se essas informações piscassem na frente dos seus olhos, ou tremesses e piscassem no seu pulso, ao alcance de uma viradinha de olhos? Há quem tema que a tecnologia de vestir possa nos transformar em cidadãos cada vez mais desatentos, acelerados pela infinidade de atividades que nos ‘chamam’ e que estariam muito mais presentes – e insistentemente desconcentrando – do que aquelas que já estão nos nossos bolsos e bolsas.

É como se fosse uma hipérbole do que já se percebe hoje em restaurantes, bares e reuniões de amigos, onde mais pessoas parecem estar concentradas em ver o que acontece nas suas telas particulares do que conversar uns com os outros. É uma prática que já foi considerada desrespeitosa – e provavelmente alguns pais ainda insistam em manter os gadgets fora da mesa durante o jantar – mas que vem se tornando uma tendência entre a convivência jovem. Ter um Google Glass no rosto pode apenas mudar o foco dos olhos, que ao invés de ficarem voltados para baixo, se perderiam ‘no nada’, como se você estivesse rastreando uma multidão em busca de alguém.

A crença de que é possível ser ainda mais eficiente ao tentar realizar múltiplas tarefas ao mesmo tempo é um mito, segundo o cientista cognitivo Don Norman, que também foi vice-presidente de tecnologia da Apple. “Diversos experimentos psicológicos mostram que quando duas tarefas relativamente complexas são realizadas ao mesmo tempo, a performance cai drasticamente”, argumenta ele, rememorando um estudo da Universidade de Utah, que revelou que dispositivos que permitiam o uso do telefone sem as mãos – como suportes para carro – causam tanta distração quanto os que precisam ser segurados, e que utilizá-los durante a direção pode ser tão danoso quanto dirigir bêbado.

Próximo passo: ciborgue?

Uma fita que você amarra na sua cintura para monitorar a sua postura durante o dia. Uma pulseira que promete medir o quanto você caminha no cotidiano, para sugerir uma programação de exercícios complementares. Uma tiara magnética que promete ajudar a pensar melhor. Um óculos que projeta informações na frente dos seus olhos. Todos esses aparelhos são gadgets de vestir que, se extrapolarmos seus conceitos de presença contínua e melhoria da qualidade de vida, beiram a ciborguização.

Ciborgues são próteses que conferem ao usuário habilidades físicas ou mentais que ultrapassam a capacidade humana. A referência pop é o RoboCop, que possuía partes robóticas que permitiam a ele força e velocidades muito acima da média. Na medicina, são reconhecidos dois diferentes tipos de ciborguização – a restauradora e a realçadora. A primeira classifica próteses e outros tipos de aparelhos ou tecnologias que ajudam a reaver uma função perdida, como é o caso dos implantes cocleares, que permitem que pessoas surdas voltem a ouvir. Também são classificados como métodos de ciborguização restauradora as bombas de insulina, lentes de contato, entre outros aparatos que se associam ao corpo e ‘consertam’ uma deficiência.

O segundo tipo de ciborguização é a realçadora, que permite ao seu usuário realizar uma função além do que uma pessoa normal conseguiria. Esse é o caso de Neil Harbisson, considerado oficialmente pelo governo britânico como um ciborgue.

Neil nasceu com um tipo de daltonismo extremo, que impede que ele veja qualquer tipo de cor. Para ele, o mundo é todo feito de tons de cinza, o que dificulta bastante atividades simples do cotidiano, como escolher uma roupa para ir ao trabalho ou entender o mapa do metrô, que tradicionalmente é mostrado em várias cores. No entanto, Neil conseguiu transformar o seu mundo em algo colorido.

Com a ajuda de um amigo, Neil desenvolveu o Eyeborg, aparato que inicialmente foi criado como um gadget de vestir, que se prendia ao seu crânio e ficava posicionado acima da sua testa, no mesmo ângulo de visão dos seus olhos, como uma espécie de terceiro olho. As cores do ambiente eram detectadas pelo Eyeborg e transmitidas para Neil em forma de sons, que ele ouvia através de um fone colocado sobre as orelhas.

O princípio de funcionamento do Eyeborg é transformar cada tom em uma melodia diferente, o que deu ao homem que antes era daltônico  a oportunidade de passar a ter uma realidade sinestésica – para ele, as pessoas não são apenas belas, mas podem ou não produzir melodias agradáveis, de acordo com as cores que emitem.

Hoje, o Eyeborg foi aprimorado para não mais ofuscar a audição de Neil. A última versão, que ele usa atualmente, foi não é mais removível, pois foi cirurgicamente implantada no crânio de Neil, e conduzindo os sons não pelo canal auditivo, mas por condução óssea. O que Neil não esperava era que, além de fazer com que ele visse cores, o Eyeborg pudesse também lhe dar capacidades extra, já que o dispositivo permite que ele reconheça espectros de cores que não são visíveis pelo olho humano, como os raios infravermelhos. Enquanto nós, meros mortais, precisamos que a meteorologia nos diga se um determinado dua é mais ou menos perigoso para a nossa pele, para Neil basta olhar pela janela e prestar atenção na música que o céu emite. Sensacional, não?

A experiência de Neil também conta algo sobre um possível futuro dos gadgets de vestir. Em entrevista, ele conta que não considera mais o Eyeborg um dispositivo de vestir, mas sim uma parte do seu corpo. “Você pode vestir tecnologia ou ser tecnologia. No meu caso, eu sou tecnologia. O Eyeborg é uma extensão do meu cérebro, das minhas sensações, do meu corpo”, conta ele, explicando que o software e o seu cérebro já funcionam em sintonia, lhe oferencendo novas sensações e permitindo até que ele possa sonhar em cores. Neil também alerta que se sentir um ciborgue é algo bastante pessoal, e que alguém que passe a frequentemente usar um gadget de vestir e sinta que sua vida se tornou melhor em algum sentido por conta do uso daquela ferramenta, pode também vir a ‘se tornar’ um ciborgue, entendendo aquela tecnologia como parte do seu corpo, uma extensão da sua forma de interagir com o mundo.

O futuro, segundo Neil, é poder expandir os nossos conhecimentos com base na maior amplitude de sensações. “Nosso conhecimento vem dos sentidos. Se pudermos estender os nossos sentidos, vamos consequentemente aumentar nossos conhecimentos”, acredita o ciborgue.

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