Não queria ser Clarice Lispector

Vira e mexe vejo gente idolatrando Clarice Lispector. A autora, brasileira naturalizada nascida na Ucrânia, é um dos expoentes da literatura nacional, mas também teve uma vida extremamente conturbada para que tanta gente deseje ser como ela. Houve um tempo em que achei que as pessoas desejavam apenas o ‘talento literário’ de Clarice, mas venhamos e convenhamos – a literatura de Clarice só era aquela por conta de quem ela foi. Não tem como escrever como Clarice sem viver como Clarice.

E Benjamin Moser conta a trágica, triste e (por vezes) desconhecida história de Clarice com bastante rigor.

Como a biografia é razoavelmente recente (data de 2009), Moser não deixou de citar logo na introdução que ‘na internet fervilham centenas de milhares de fãs’ da autora, ainda que, quem navega na web bem saiba, boa parte desses escritos seja erroneamente atribuída à Clarice, bem como acontece com Arnaldo Jabor, Caio Fernando Abreu, entre outros.

Análises literárias da prosa (ou seria poesia?) Lispectoriana a parte, meu interesse era mais na biografia em si. Entrei na onda de ler biografias pra entender melhor como é o trabalho do biógrafo, e o caso de Moser me chamou bastante a atenção. Norte-americano estudioso da língua portuguesa, Moser conta a história de Clarice não para os brasileiros, mas para o mundo – faz questão de contextualizar historicamente e também literariamente as situações pelas quais Clarice passa. É interessante notar como ele reconta certos trechos da nossa história, sob uma visão ‘de fora’:

“(…) as mudanças pacíficas de poder no âmbito nacional mascaravam um nível de violência, corrupção e fraude que os políticos nacionais mal tinham condições de manter sob controle. O Nordeste, com suas massas de trabalhadores rurais analfabetos vivendo em condições próximas da escravidão, estava nas mãos de um punhado de famílias poderosas, como a de João Pessoa. Votos eram facilmente comprados ou manipulados. No mais moderno Sul, havia uma duradoura rivalidade entre São Paulo, o estado mais poderoso, e Minas Gerais e Rio Grande do Sul.” (p. 128)

Moser também encontra espaços para análises literárias das obras de Clarice, de acordo com seus lançamentos e suas repercussões pela mídia na época. Um registro interessante para quem estuda a obra da escritora, que pode entender melhor como os títulos foram publicados, quanto tempo aguardaram até que chegassem ao público e qual era a impressão da época em relação à escrita lispectoriana.

O esquema usado por Moser para narrar a história é circular. Ele parte da cena em que Olga Borelli vai de táxi com Clarice até o hospital, nos dias próximos ao seu falecimento, e daí retorna a estaca -15, retornando uns 60 anos no tempo para narrar a saga dos Lispector desde a vida complicada na Ucrânia até que chegue novamente ao leito de morte de Clarice, na mesma viagem de táxi. Apesar de aparentemente ser um processo manjado, Moser enriquece a trajetória contada com contextualizações históricas brasileiras, internacionais e ucranianas, dependendo do ‘local do mapa múndi’ em que a história está se desenrolando, com direito inclusive a ‘explicações’ sobre os ‘tipos’ locais:

“O mineiro, de acordo com o estereótipo, é pão duro, desconfiado e religioso; há uma piada segundo a qual as mesas de Minas têm gavetas para guardar rapidamente a comida ao primeiro sinal de uma visita. É um lugar em que expressões retorcidas desempenham papel importante na linguagem local. Ninguém em minas é louco; o eufemismo preferido é “sistemático”. (…) Um mineiro, acima de tudo, não chama a atenção sobre si mesmo.” (p. 178)

***SPOILER ALERT*** (aliás, biografia pode ter spoiler?)

Boa parte da história da família Lispector é narrada mais por Elisa, irmã de Clarice. Desde o estupro de Mania Lispector, a vida difícil de Pedro, pai de Clarice, no nordeste brasileiro, entre outros detalhes, como a morte lenta de Mania por consequência de uma doença adquirida por conta da violência sexual sofrida nos pogroms na Ucrânia, esses detalhes todos são esmiuçados pela obra de Elisa. Essa certamente foi uma ótima fonte de Moser, ainda que, pelo que dá a entender, a obra tenha sido publicado com um pretexto não biográfico.

O conjunto da obra de Moser situa bem a personalidade Clarice Lispector e a obra produzida por ela. O filho esquizofrênico, os anos vagando pelo mundo acompanhando o marido diplomata e tantos outros detalhes de sua vivência fazem com que a escrita dela fique mais interessante e compreensível. O biógrafo faz o possível para tentar ‘explicar Clarice’, ainda que quem lê perceba que não é possível transpassá-la.

A dor e o incômodo que Clarice parece sentir permeiam toda a obra. É difícil continuar a leitura depois de determinados trechos. Achei necessário parar para respirar, para ouvir uma piada, brincar com a cachorrinha e esquecer de passagens tão tristes. Para quem acha que escrever como Clarice é fácil e simples, e que sua sensibilidade são ‘um dom’, abaixo alguns trechos que considerei emblemáticos para ‘não querer ser’, de forma nenhuma, uma Clarice Lispector.

“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida” (p. 120)

“Após a publicação de ‘Uma aprendizagem’, Clarice (…) anunciou que não voltaria a escrever. ‘Por quê?’, perguntou a entrevistadora. “Ora!”, exclamou Clarice. “Porque dói muito.” (p. 510)

“Que ninguém se engane”, ela escreveu mais tarde, “só consigo a simplicidade através de muito trabalho.” (p. 562)

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