#mimimi infância e consumismo – não faz parte da educação ensinar a resistir ao capitalismo selvagem?

Já há um bom tempo eu ouço, leio ou vejo a reclamação dos pais em relação à publicidade voltada para as crianças, que se desdobrou em uma série de protestos por uma ‘infância livre de consumismo’. Sabe, eu entendo a preocupação das mães e pais, eu só não concordo com o jeito que eles querem resolver a coisa.

Como faz pra empresa de brinquedos então fazer comercial? Alô papai, não esqueça da Barbie da filhota? Alô mamãe, o Batman é o super herói mais querido pelos garotos?

Em uma das aulas da minha pós no LabJor, uma das minhas colegas, a Marta Avancini, levantou a questão sobre como estava difícil lidar com o consumismo das crianças, e que era complicado para ela, como mãe, ‘segurar a onda’ que a publicidade gerava, de uma forma que o filho dela achava essencial adquirir alguma coisa pra se sentir inserido. Eu entendi o ponto dela, mas discordei na hora. A meu ver, faz parte da educação ensinar seu filho que ele não pode ter tudo que a propaganda mostra. Sim, é complicado, é difícil e vai ser cansativo, mas quem disse que ter filho era coisa fácil, simples e só com alegrias.

A Marta, com a experiência de ser mãe que eu não tenho, frisou que o problema é que a propaganda hoje é muito direcionada para os pequenos e que isso dá um nó na cabeça deles. Eu comecei então a lembrar de algumas propaganda clássicas, altamente voltadas para as crianças, que eu ouvi durante a minha infância.

No dia mesmo eu lembrei das mais clássicas, como a do ‘me dá me dá me dá me dá danoninho:

Tinha também a da Caloi, feita pra ensinar as crianças como ~insistir~ por uma Caloi de presente:

(a que eu vi era a versão dos anos 90, mas o conceito era o mesmo)

Minha irmã também lembrou da ótima ‘Compre Batom’, feita pra ‘hipnotizar’ papais e mamães:

E depois lembrei também da incrível ‘eu tenho você não tem’, o mantra infantil de bullying no tempo que bullying não se chamava bullying:

Meu ponto é que eu vejo como mais construtivo ensinar seu filho ou filha a entender o mundo ao redor e compreender o que se pode ou não ter do que simplesmente querer adequar o mundo às necessidades dos pais. Lógico que se não tiver publicidade do tipo ‘eu tenho você não tem’ o  papai não vai precisar lidar com o pimpolho chorando porque ele quer uma tesourinha do Mickey, mas será que isso é o melhor? Será que não faz parte do aprendizado de uma criança entender o que pode ou não ser adquirido, entender que algumas coisas não vão ser compradas porque ‘papai não pode’, ou porque ‘você não precisa disso’ ou porque ‘vamos comprar uma diferente’?

Eu sempre tive comigo que criança não é alguém burro, então se você conversar  e explicar, tomando cuidado para usar os termos que cada criança compreende, eles vão entender a situação.

Se eu usei o ‘eu tenho você não tem’ com alguém? Claro, pergunta pras minhas irmãs. Mas junto com a atitude, veio a explicação dos meus pais de que não era legal fazer isso, porque você fazia o outro se sentir mal por não possuir o que eu possuía, e então eu entendi que mesmo que eu tivesse algo melhor, não precisava sair ai humilhando pessoas.

‘Me dá danoninho’ foi mantra de casa toda vez que passava a ‘perua da Cooper’. Mas por mais que a gente insistisse na cantoria, minha mãe só comprava Danoninho quando dava. Idem com ‘compre Batom’, com a Caloi e com tantas outras.

Acho que os meios mudaram – hoje a propaganda está na web, no canal infantil da TV paga e em tantos outros lugares – mas antes de queremos mudar o mundo para as crianças, que tal tentar mudar as crianças e fazê-las entenderem o mundo?

Lógico que eu tenho experiência nula em criar pequenos seres, mas é a minha opinião.

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2 opiniões sobre “#mimimi infância e consumismo – não faz parte da educação ensinar a resistir ao capitalismo selvagem?

  1. Bem jacque, embora concordo contigo que há um mimimi por parte de sua amiga, não confio na auto-regulamentação na qual a mídia brasileira gosta de se apoiar. O Conar proíbe a veiculação de propagandas que “se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança” e isto não é a toa. Recentemente fiquei sabendo por um psicólogo que crianças não podem ter a frente determinados temas tanto por falta de repertório pra discutir quanto pelo próprio desenvolvimento pessoal. (na história da psicologia, teve um cara que começou a trabalhar com uma criança temas extremamente avançados e a criança enlouqueceu – sempre achei que isto se dava a um pudiquismo, resquício de uma educação católica…)
    Avançando no assunto, quando me preparava para gravar meu projeto de tv, encontramos a dificuldade que seria discutir liberdade com crianças de 7 anos. Elas simplesmente não têm isto no repertório, porque se um pai não deixar algo é porque assim deve ser. Não existe meio termo entre o sim e o não. As pessoas fazem maldade porque elas são más e pronto! Coloca isto em paralelo com um comercial falando que ela só vai dar os melhores saltos de bike se ela tiver uma Caloi. O pai não deu porque ele é mau, ele não quer ela dando os saltos que a Caloi daria. E ele nunca fará bons desenhos se não tiver um lápis faber castell. (eu achei isto por anos, gastei fortunas em lápis e hoje morro de remorso com a pressão exercida sobre a minha mãe pela publicidade)
    Outra coisa a se levar em conta é a permanência da criança frente ao televisor, que com certeza mudou da década de 90 a de 10. Começa pelo fato da gente ter sido educado com a televisão, algo que com nossos pais, aconteceu pouco. Outro ponto a se levar em conta é a dissolução das comunidades, que acredito eu, deve acabar levando as crianças a um isolamento maior frente a telinha.
    Mas bem, relativo a mídia e criança temos diversos problemas. Uma vez dei de cara com um blog que me interessou muito. Eram relatos de uma mãe (e pelos comentários de outras) norte-americana na qual um dia a filha adquiriu a consciência de que não era parecida com uma princesa da Disney….. Relacionado a isto temos o http://www.youtube.com/watch?v=ybDa0gSuAcg
    Nossa desvirtuei o tópico hein!
    Bem… recomendo assistir o France/Tour/Detour/Deux/Enfants do Jean-Luc Godard. É um programa no qual ele entrevista duas crianças e é sensacional! Também recomendo ver o Amarelinha, quando este for distribuído ;)

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