Walter Isaacson, o excelente biógrafo para Steve Jobs

Ganhei a biografia de Steve Jobs da minha mãe no Natal de 2011, ela com a desculpa de que ‘não sabia exatamente o que me dar’ acabou acertando em cheio a biografia que há meses eu ouvia falar sobre, mas não tinha tido coragem de comprar, já que tinha muitos títulos (pelo menos uns 10, alguns adquiridos em 2008!!) ainda por ler.

Mas daí quando você ganha, a culpa é bem menor e eu passei ele na frente de todas as outras leituras ;)

O meu principal interesse no livro não era exatamente na história de Steve Jobs em si, mas em como ela seria retratada. Essa é uma biografia oficial, que Jobs acompanhou a confecção, e que cabe no princípio básico da Prof. Maria Eugênia em uma aula sobre biografias na graduação: “biografado bom é biografado morto”.

Desde essa longínqua aula, nos idos de 2008 (quando eu e a Mari Janine fizemos uma pesquisa sobre Plínio Barreto), meu interesse por biografias é grande. É um trabalho de pesquisa praticamente jornalístico, além de um interessante critério de organização – que nem sempre precisa ser cronológico – e uma curadoria do que deve ser retratado e o que pode ser deixado de lado.

Foi nisso que eu prestei atenção detalhada durante a leitura da biografia de Steve Jobs: eu estava interessadíssima no estilo de construção que Walter Isaacson ia dar, porque a história de Jobs a gente lê nas notícias de jornais, em matérias de revistas e em análises em blogs internet afora. A sacada era entender o que Isaacson ia fazer pra se diferenciar de um grande artigo da Wikipédia sobre o fundador da Apple.

Uma das primeiras anotações que fiz (com esses marcadores adesivos bacanas, porque eu já perdi o medo de riscar livros, mas tenho uma enorme preguiça de manter um lápis por perto) é que Isaacson decidiu criar seu texto como uma narração que incorpora as aspas de seus entrevistados, semelhante a uma matéria jornalística.

“Quando garoto, sempre pensei em mim como alguém ligado em humanidades, mas eu gostava de eletrônica”, contou (p. 11)

Esse artefato, o mesmo usado na construção do jornalismo, é interessante por aproximar o biografado do leitor, que se percebe ouvindo ipsis literis a pessoa central da obra. Mas, ao contrário do que é esperado do jornalista, Isaacson tem a licença poética de biógrafo para emitir sua opinião em diversos pontos – e, genialmente, usa palavras dos outros em meio às suas próprias sentenças, fazendo do texto um tangram de opinião, narrativa e entrevista muito bem ajambrado.

O artigo citava Bud Tribble falando do “campo de distorção de realidade” de Jobs e notava que “de vez em quanto ele desandava a chorar nas reuniões”. A melhor citação foi talvez a de Jef Raskin. Ele dizia que Jobs “daria um excelente rei da França”. (p. 157)

Outro papel bem representado por Isaacson é do biógrafo contextualizador e quase que onisciente. Em situações em que apresenta novos personagens, ele mesmo explica como cada um pode ser entendido – obviamente, a partir da visão do próprio Isaacson, que se esforça o tempo todo para se manter o mais neutro possível, não deixando de falar mal de Steve quando acha necessário.

“Como Jobs, ele [John Sculley] era muito motivado, inspirador, talentoso e um pouco rebelde, mas, à diferença de Jobs, tinha a habilidade de fazer  com que os outros pensassem ser os autores das ideias dele próprio” (p. 167)

Ainda que não siga uma ordem cronológica ao contar a história de Jobs, Isaacson cria um contexto também ‘pós-histórico’ para fazer com que o leitor entendesse o impacto das conquistas e dos desafios superados por Steve, bem como as consequências ruins (no caso do seu temperamento estouradinho e da sua falta de cuidado com a própria saúde). Em certo momento, ao falar sobre o anúncio 1984, ele esclarece o que aconteceu após a exibição:

“Foi um fenômeno. Naquela noite, as três redes nacionais e cinquenta estações locais levaram ao ar notícias sobre o anúncio, que se propagou numa velocidade sem precedentes na era pré-YouTube. Ele [o comercial] acabou sendo escolhido pela TV Guida e pela Advertising Age como o maior comercial de todos os tempos” (p. 182)

Mas não foram só essas as intervenções do biógrafo que achei louváveis. Ele não dá a impressão de estar bajulando Jobs, ainda que use muitas das frases obtidas em entrevistas com Steve em sua obra. Em certo momento, ele se dá inclusive o direito de citar Jobs e depois dizer que ‘as coisas não funcionavam assim como ele estava dizendo’:

“É por isso que eu adorava Bob Iger”, lembrou Jobs. “Ele simplesmente expôs tudo. Agora, esta é a coisa mais idiota que se pode fazer quando se entra numa negociação, pelo menos segundo as regras tradicionais. Ele pôs as cartas na mesa e disse: ‘Estamos ferrados’. Gostei do cara na hora, porque é assim que eu também trabalho. Vamos pôr logo todas as cartas na mesa e vamos ver como fica o jogo.” (Na verdade, não era esse o procedimento habitual de Jobs. Ele costumava começar as negociações proclamando que os produtos ou serviços da outra empresa não prestavam.) [grifo meu] (p. 458)

Surpreendente também foi a abertura que ele deu para que todos pudessem contribuir com algum trecho na biografia, mas sempre explicando como a situação decorrera. Em certo momento da obra, quando Isaacson critica o tratamento que Jobs dava às suas filhas mais novas, em especial à Erin, que muitas vezes fora deixada de lado, Isaacson abre o parênteses do pedido de Laurene Powell, esposa de Jobs, para que Erin pudesse ‘dizer algo sobre o pai’. O engraçado é que, do jeito que Isaacson apresenta a história, faz parecer quase triste que Erin tivesse que tentar ‘defender a honra do pai’ dizendo que ‘não precisava da atenção dele’. Repare:

Em certo momento, quando eu estava terminando este livro, Powell me disse que Erin queria me dar uma entrevista. Não era algo que eu pediria, pois ela tinha apenas dezesseis anos, mas concordei. O ponto que Erin frisou foi que entendia e aceitava que o pai nem sempre lhe dava muita atenção. “Ele faz o máximo que pode para ser pai e presidente executivo da Apple, e equilibra muito bem essas duas coisas”, disse ela. “Às vezes eu gostaria de ter mais atenção dele, mas sei que o trabalho que ele está fazendo é muito importante, e acho legal de verdade, então tudo bem. Realmente não preciso de mais atenção” (p.558)

O remendo de Erin fez a situação parecer ainda pior, não?

Encerrando a biografia, Isaacson se dá um espaço para ponderações sobre o caráter de Steve Jobs e sobre sua relação com as pessoas ao seu redor. Afirma que ele fora inteligente sim, mas nada fora do comum (p.582). O que lhe compensava a falta de inteligência, por assim dizer, eram seus instintos, esses sim geniais, “inesperados e mágicos”, nas palavras do biógrafo. Contudo, ele abre um parágrafo para criticar o tipo de tratamento que Steve dera às pessoas ao seu redor, ainda que a grande maioria delas dissesse que ele tinha feito com que elas realizassem coisas que não achavam possíveis de serem feitas.

“A aresta desagradável de sua personalidade não era necessária. Ela o atrapalhou mais do que ajudou. Mas, às vezes, servia a um objetivo. Líderes polidos e suaves, que têm o cuidado de não magoar os outros, geralmente não são muito eficazes quando se trata de forçar mudanças. Dezenas dos colegas que Jobs mais insultou concluíram sua ladainha de histórias de horror dizendo que ele os levou a fazer coisas que jamais julgaram possíveis” (p. 581)

O fechamento fica por conta do timing perfeito de Isaacson – transformou o último trechinho da biografia em uma seção chamada “Só mais uma coisa…”, exatamente a sentença que Steve Jobs usava ao fim das suas mais espetaculares apresentações para anunciar um produto revolucionário – o famoso “one more thing” ;) Neste trecho da biografia, Isaacson dá espaço para Steve Jobs falar – são 4 boas páginas de pensamentos de Jobs costurados de forma que não parecem ‘catados’, mas sim um texto feito exatamente para figurar ao fim da sua biografia.

O último parágrafo da obra – o meu trecho preferido de ler antes de iniciar a leitura de qualquer livro  – não dá detalhes sobre a morte de Steve, do modelo “faleceu em X local rodeado de amigos e familiares”. Isso fica subentendido – Steve faleceu em decorrência do seu câncer. Não precisa ser reforçado ainda mais. Quem quiser detalhes de dia e hora sempre pode recorrer à internet, não é mesmo?

As últimas frases da obra mostram um Steve Jobs tranquilo (ao menos aparentemente) com a própria morte:

“Gosto de pensar que alguma coisa sobrevive quando morremos”, disse. “É estranho pensar que a gente acumula tanta experiência, talvez um pouco de sabedoria, e tudo simplesmente desaparece. Por isso quero realmente acreditar que alguma coisa sobrevive, que talvez nossa consciência perdure.” Ficou em silêncio por um bom tempo. “Mas, por outro lado, talvez seja apenas como um botão de liga-desliga”, prosseguiu. “Clique! E a gente já era.” Fez outra pausa e sorriu de leve. “Talvez seja por isso que eu jamais gostei de colocar botões de liga-desliga nos aparelhos da Apple”. (p.586).

Realmente, uma biografia que vale a dedicação de carregar o pesado calhamaço e lê-lo até o fim. Talvez nem tanto pela curiosa história de Jobs, mas principalmente pela habilidade de Isaacson em tratar da vida de uma personalidade tão controversa e intrigante sem que viesse a parecer um biógrafo puxa-saco ou que tinha urticária de Jobs.

Uma neutralidade saudável e não apática. Uma leitura que deixa o leitor pensar, ainda que lhe dê alguns fatos já com opiniões embutidas.
Uma narrativa bem construída, que valeu todos os meus marcadores adesivos.

Anúncios

Uma opinião sobre “Walter Isaacson, o excelente biógrafo para Steve Jobs

  1. Já tinha visto o livro assim que saiu, mas decidi não comprar e deixar aquela “onda” passar. Mas hj vi o livro e resolvi procurar uma opinião a respeito antes de comprar. Parabéns pela a analise, explica mtas coisas sobre o livro e lendo as suas impressões me deu vontade de ler a obra. Mais uma vez Parabéns!

Os comentários estão desativados.