Como uma USP pra mim

Por anos eu fiquei completamente frustrada de não ter sido capaz de passar na USP. Era uma raiva contida, ainda mais quando você é o 19º colocado de uma lista que chamou até o 18º lugar. Apesar de eu ter me agarrado a todas as esperanças possíveis, desde o tradicional ‘vai dar certo’ até recorrer à última manifestação de interesse na vaga, nada funcionou e eu estava mesmo presa naquele buraco que era Barão Geraldo em 2007.

E como tudo o que não tem remédio, me acostumei a ir e vir todo final de semana. Ônibus, ônibus, andar a pé, arrastar mala de roupa e bolsinha de comida, o que preciso fosse, mas chegar em casa sã, salva e com comida da minha mãe pra jantar, porque meu-Deus-do-céu como eu cozinho mal. Era a minha via-sacra de sair de um lugar que eu nem tinha desejado tanto assim para voltar para onde eu tinha segurança, amor e carinho dessas pessoas que me amavam ainda que eu estivesse colocando em prática o meu ‘plano C’ ao invés do ‘plano A’.

Falando assim parece que a coisa não era tão séria, mas era. Em um arroubo de ‘chego lá nem que seja a porrete‘, com inspiração clara no Augusto Matraga de Guimarães Rosa, descobri os meandros acadêmicos para cursar matérias na USP. E, sinceramente, nenhuma das disciplinas no meu tão desejado curso uspiano pareciam lá tão interessantes assim um ano depois do vestibular. Acabei me matriculando em uma aula de segunda-feira às 8 da manhã (que além de chata, tinha o pior horário do universo, uma das causas da minha desistência) e outra na sexta-feira no período matutino, que tinha um professor completamente exótico e um conteúdo bem interessante.

Fim das contas: fiz USP por 4 meses, em uma via-sacra ainda maior, que envolvia sair de Campinas às 5am, ir até um lugar bem estranho para fazer a baldeação de ônibus, chegar na ECA às 7:40 am, ter aula das 8am às 12pm, mais ônibus, mais metrô, mais ônibus, mais caminhada para enfim chegar em casa e almoçar às 3pm. Foi uma das únicas matérias em que fui agraciada com a nota máxima e exatamente ela teve apenas os créditos aproveitados no currículo acadêmico, deixando a nota de lado. Quem lê e pensa ‘puxa, que burra essa menina’ não sabe que esse foi o passo necessário para toda uma aceitação da minha graduação. Na real? As duas universidades são boas, cada uma na sua, mas com coisas em comum.

Cada uma tem suas vantagens e desvantagens e, pensando bem e fazendo uma auto-análise crítica, eu teria crescido menos fazendo USP. Primeiro, porque a receptividade lá parecia menor; dois, porque o curso, bem, o curso era mais estranho do que o que eu vim a fazer, apesar dos seus 35 anos de existência; três, provavelmente eu teria perdido boa parte do crescimento pessoal que adquiri vivendo em Barão Geraldo, um buraco negro de Campinas onde eu não conhecia absolutamente ninguém, fazia um calor infernal, eu morava nos lugares mais suspeitos possíveis (e mudei de casa mais vezes do que consegui fazer em 20 anos de vida) e ainda tinha que explicar para as pessoas o que raios eu esperava fazer com um diploma de Bacharel em Estudos Literários.

Os anos seguintes à USP foram mais interessantes, o que me faz pensar que eu devia ter tentado o intercâmbio de disciplinas antes: eu dava mais atenção às coisas que fazia, me dedicava mais, participava mais de atividades da universidade e me embrenhei em mais festas, por mais bizarras que elas me parecessem.

Hoje que a faculdade acabou, sinto falta do ambiente. É o tipo de vivência difícil de conseguir de novo, é claro, já que não é apenas um local físico que faz a diferença, mas também todas as pessoas que estavam ali comigo, e que não estão mais (nem comigo nem em Campinas). Contudo, pensar sobre o assunto tem sido um excelente aprendizado sobre entender a situação atual e aproveitar o que se é capaz de conquistar.

Nos últimos dias, tenho pensado quantas coisas são como uma USP pra mim. Assim como aquele curso que eu queria tanto, existiram também itens que eu quis muito e não pude ter, oportunidades que eu esperava que dessem certo e não deram, amizades em que me empenhei tanto pra fazer dar certo e os ditos ‘amigos’ nem tchum, meninos para os quais eu quis muito ser especial, mas aos quais eu não fui capaz de agradar.

Ao contrário do que aconteceu com a universidade, eu infelizmente não vou ter um estagiozinho em cada situação que eu queria ter para mim para descobrir que não era lá tãaao legal assim. Longe de mim ser do tipo conformista, daquele que diz “ai esse sapato furado que eu tenho aqui tá bom, porque né, eu podia não ter pé”, mas é preciso entender até onde se pode efetivamente ir e de quais portões não conseguiremos mesmo passar.

Kundera usava uma expressão muito interessante, dizendo que certas pessoas entram na ‘memória poética’ do outro e pronto, fecham a porta e não deixam mais ninguém entrar ali. Quem está do lado de fora fica vergonhosamente se debatendo frente ao portão da memória poética alheia, igual criança birrenta no portão da escola querendo ir embora, enquanto a mãe, entristecida, porém com a certeza de que sabe o que faz, dá as costas e deixa a criança esperneando até cansar, quando então o inspetor a acompanha enfim para a tão sofrida sala de aula.

É bem cruel essa busca pelo equilíbrio, de forma a manter-se longe do conformismo e ao mesmo tempo sem debater-se frente a quaisquer grades ou portões que delimitam as coisas que não poderemos ter, mas dadas as opções – conformar-se com pouco ou espernear por algo que não vamos ganhar – eu fico com a crueldade da busca mesmo.

 

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