Retrospectiva 2010

Daí o final do ano sempre te faz querer olhar para trás. É isso que querem as lojas, os jornais, o rádio e a TV. Olhe para trás e avalie a sua vida. Coloque na balança as coisas boas e ruins, faça uma limpa na sua vida, no seu quarto, na sua casa, nos seus armários. Reveja, renove, comece o próximo ano como aquele caderno novinho do ginásio: limpinho, organizado e com a melhor caligrafia que você conseguir.

Mas vamos combinar? Todo ano é sempre a mesma coisa: sua vida começa igualzinho o caderno escolar em março, e na maioria das vezes termina do mesmo jeito que o seu caderno acaba dezembro – a capa está estropiada, com a melhor letra nas primeiras páginas e com o maior garrancho nas últimas folhas. Começamos sempre com a melhor das intenções, mas encerramos sempre do jeito que dá. Todo santo ano.

Isso me faz lembrar do poeta que dizia que era esperto aquele que tivera a ideia de dividir o tempo em dias, meses e anos, porque ele conseguiu criar recomeços contínuos. Em um novo dia, você pode começar de novo. Em uma nova semana, a sua dieta vai funcionar. Quando o próximo mês começar, você vai finalmente se matricular na academia. No ano que vem, enfim entrará na faculdade.

Só que não adianta. A sensação de recomeço inventada pelo tempo que se divide em sub-unidades não é suficiente para fazer você efetivamente recomeçar. Nessas horas vale mais ter um surto psicótico e decidir de vez o que se quer ou não. Não interessa que sejam três horas da tarde de uma quarta-feira, recomece agora. Tente de novo a partir do momento que achar viável, e não a partir de um tempo estipulado por uma contagem tradicional. Será mesmo que você precisa de um novo ano para poder fazer algo, ou só precisa dizer para si mesmo que precisa fazer algo de diferente?

Tente reiniciar seu ano no dia 29 ao invés do dia 1. Imagine poder fazer a mudança agora. Matricular-se naquele curso de idiomas no dia 15, e não no dia 30. Pedir desculpas agora, e não no Natal. (Aliás, diga-se de passagem, nenhuma desculpa pedida na época de Natal é válida. É a época das desculpas deslavadas e dos cumprimentos hipócritas. Evite.)

Ao invés de fazer a retrospectiva da sua vida quando o comércio sugere, tente rever seus planos em março. Ou em junho. Ou em setembro. Ou agora, ainda que a sugestividade seja grande. Repense sua vida, reveja seus conceitos, esteja aberto a novas linhas de pensamento. Observe. Não porque é janeiro, ou dezembro, ou o escambáu. Mas porque a vida é sua, e você merece saber exatamente para onde seu barco está indo. Se você deixar pra tomar conta do leme só em dezembro, pode ser que seja preciso voltar por muitos meses. Esteja sempre alerta, porque você –e só você – é o capitão da sua própria vida.

Quem disse que é preciso ser março pra você começar um caderno novinho?

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