E eles nem sabem

Vem cá, deixa eu te contar uma verdade malvada: você não é auto-suficiente e jamais será independente.

Tá, talvez você tenha aí o seu carro e não precise mais pedir emprestado do seu pai, e é bem possível que tenha a sua casa, na qual a sua cama poderá ficar desarrumada por tanto tempo quanto você achar necessário, mas você jamais poderá dizer que chegou ali sozinho, porque na maioria das vezes chegamos onde estamos somente por conta de quem está ao nosso redor.

Digo isso porque é uma coisa que eu mesma preciso me acostumar. Você não está ai por conta própria, e muito do que você é hoje é influência de muita gente em volta.

Minha letra, por exemplo. Apesar de eu raramente escrever a mão, a minha letra é uma grande misturança de estilos e influências dos meus amigos. Passei anos tentando copiar a letra bastão de T.A.G.M., mas nunca deu certo. Incorporei algo do meu desleixo com alguma praticidade da letra bastão, e não raro encontro dois ‘t’s diferentes em uma mesma palavra.

L.U.M. também me ensinou que o valor dos presentes não está no seu custo, mas na atenção que ele demonstra. Foi dela que recebi grande parte dos presentinhos que ainda guardo com muito carinho, como um potinho com desenhos de areia que ela mesma fez.

L.T.M ensinou a mim e às amigas que o fato dela ser arrastada com os pais para uma longíngua cidade do nordeste não faria com que gostássemos menos dela, ou que deixássemos de lembrar uma das outras. Foi para ela que fizemos vaquinha e armamos estratégias para que um kit de perfumes do Boticário conseguisse chegar inteiro até Fortaleza, e foi dela que recebi cartinhas melequentas, que vinham com amostrinhas de produtos e cremes para eu experimentar.

R.R. foi o primeiro caso de revolta com pais de amigos. Com ela aprendi a tentar ser um pouco mais compreensiva com os meus próprios pais, apesar de eu sempre achar que ela era compreensiva demais, e de ter, em vão, tentado argumentar em um chá da tarde na casa dela sobre como eles não podiam ameaçar a vida escolar da menina por causa de um carinha que ela gostava. O carinha se foi, a escola terminou, ela se mudou de cidade e hoje quase não nos falamos. Se duvidar, ela nem se lembra mais do episódio, mas tá aqui, junto com todas as coisas que me moldaram.

A gente cresce e acha que agora sim vai ser independente, mas nem a música que ouvimos hoje é uma decisão só nossa. Até hoje eu lembro da primeira vez que ouvi Faroeste Caboclo, apresentado pelo meu já falecido primo B.S.A. Ele roubou os CDs do quarto do tio mais cri-cri da família e se pôs a apresentar, com ares de mestre, o que eu devia aprender a gostar de ouvir. Ele também tentou me apresentar Nirvana, mas C. e T.O. já tinham se ocupado disto, me fazendo o favor de gravar em agora obsoletas fitas K7 os clássicos de Nirvana e Metallica, enquanto me ensinavam a mentir e matar aula pra ir no cinema.

No colégio, achei que eu já sabia o que queria ser pra vida inteira, mas ainda tinham muitos amigos por vir. G.I.V me fez argumentar por dias a fio sobre algo que provavelmente eu não tinha razão, mas que não tinha outra grande justificativa. F.S. nos apresentou ao incrível mundo alcoólico juvenil, e fizemos imensas melecas confeccionando litros de ‘bat halls’ (vodka da pior qualidade, leite condensado e halls preto) para uma noite de nonsense e risadas coletivas. Os nerds do colégio me ensinaram que pessoas esquisitas não necessariamente são chatas, e que podemos nos divertir bastante com elas.

Quando o colégio acaba, você então imagina que *agora sim* você sabe o que vai fazer da sua vida, só pra tomar mais aquela patada gostosa. R.G.A. me fez entender que nem todos os seus amigos vão fazer aquilo que você imagina que seja o certo – coisa que M.H. já tinha explicitado quando eu ainda era uma pobre estagiária – mas que ainda assim eles são seus amigos, e continuam sendo quase os mesmos. M.H. desistiu da vida desregrada e eu desisti de dedurá-lo, obviamente. R.G.A. hoje quer ir para a Eslovênia fazer algo que eu definitivamente reprovo, e ela sabe, mas eu já espero o cartão postal que ela prometeu me mandar quando for pra lá. Porque independentemente do que ela faça, e do quanto isso seja contra o que eu acredito, ela ainda continua sendo a mesma R.G.A de antes, que me faz rir com qualquer coisa, e que não se aguenta séria por mais de 5 segundos (eu sei porque eu contava em voz alta).

Depois de alguns anos de cursinho, onde a sua vida social é praticamente anulada, e qualquer vestígio de orgulho que você tenha sobre si mesmo se esvai, a facu se apresentou como um grande circo de freakshow. Tudo o que você vê ali é completamente diferente de qualquer ambiente que você tenha adentrado antes. Pouca homogeneidade, gente muito mais louca do que tudo o que você já viu, até o ponto de que pouca coisa passa a te surpreender 5 anos depois.

Lá você acaba entendendo de vez que não concordar com o que alguém diz ou faz não precisa fazer com que ela seja abominável ou inconvivível. G.T. é a prova do ‘rótulos my ass’, T.K.A. é hoje a consequência de enormes argumentações minhas e de P.S.L. sobre como ela deveria ao menos tentar ser mais gentil, P.S.L. é a evidência de que sensatez não tem idade e me fez aceitar que algumas coisas sim precisam de medidas drásticas e temos que estar prontas para elas, mas que nem sempre isso é preciso. E também que tomar café com paciência (e lerdeza) faz bem. :)

C.P.L. é tipo tudo o que eu precisava saber sobre um novo eu, desenvolvido nesses últimos anos. Ao contrário de todas as outras pessoas do meu mundo até então, ela não achou que eu era uma chata metida, ou uma clubber (eu já tinha passado da fase de usar roupas multi-coloridas também) e me ensinou que essa coisa de estilo é pra quem pode, e não necessariamente para quem quer. A quem possa interessar, ela é a amizade mais real que eu já tive quando iniciada com um simples scrap de orkuts. C.P.L. é tipo o Google melhorando a minha vida. E eu sou tipo o Google melhorando a vida dela, certeza (porque ela já fez questão de me dizer algo parecido).

Hoje eu sei que eu sou na verdade um grande emaranhado de influências externas. Os materiais de maquiagem na minha gaveta hoje são um oferecimento de T.Y.I., a minha resistência a debandadas de amigos se deve às situações que T.A.G.M. me fez passar, o conformismo com a minha sempre presente insegurança é sempre compartilhado com F.H.S.S., que também tem o incrível poder de fazer com que os meus problemas sejam sempre muito menores, comparados com os dele. Ah, e meu gosto musical sempre será muito mais terrível que o dele, obviamente.

Nessa listagem toda, exclui obviamente a influência de H.M.Q., além dos meus pais, das irmãs e dos familiares ainda viventes. A convivência e tão grande que seria besteira da minha parte tentar listar ou delimitar a influência deles sobre o que eu me tornei hoje. Lógico que eles não determinam nada, mas eles fazem parte das situações cotidianas que me levam a decidir entre esquerda e direita, longe ou perto, vermelho ou preto. E são essas decisões que fazem nosso caminho.

O que eu me propus, ao começar esse texto que mais tem cara de desabafo e/ou homenagem, é a aceitar e compreender que eu sou na verdade uma grande colcha de retalhos. Tem ali uns retalhos mais frequentes, de panos mais extensos, mas tem aqui ou acolá um pedacinho rasgado de um vestido, uma ponta de uma calça velha ou um filetinho daquele macacão mais lindo de todos da infância.

Todos que passam por nossas vidas deixam um rastro para trás. Os amigos, esses deixam coisas boas, coisas importantes. No final, eles nem sabem o quanto fizeram a diferença, mas não tem problema – EU sei o quanto são importantes e onde ajudaram a me moldar.

E eu faço questão, de aqui ou acolá, lembrá-los que eu me importo. Às vezes é uma visita repentina, às vezes é uma anotação no mural do Facebook ou uma conversa rápida em um chat. Porque eu sei o quanto eles significam pra mim. Mas eles, eles nem sabem.

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3 opiniões sobre “E eles nem sabem

  1. Isso se resume em uma palavra: Ubuntu. O sentido de coletividade, “eu sou o que eu sou graças ao que todos nós somos”. ;-)

  2. Experimenta ler isso ouvindo os ultimos minutos da The best Of Times.

    Creeeeppy.

    EU APARECI NO TEXTO MEUDEUS HOHOHOH

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