E um pouquinho de loucura, é normal?

publieditorial*

Na teoria literária existem diversos estudiosos partidários da ‘morte do autor’, de forma a ter a obra literária como algo independente de seu criador. Para eles, é irrelevante relacionar a biografia do autor, suas influências e seus objetivos ao escrever com o texto literário.

Elisabeth Bachofen-Echt (Klimt)

No entanto, quem lê Gonzos e Parafusos e conhece ao menos superficialmente a biografia da autora não consegue simplesmente não relacionar uma coisa com a outra.

Gonzos e Parafusos exige repertório, em especial em relação às artes visuais – formada em desenho industrial com mestrado em belas artes, a autora Paula Parisot insere em sua obra diversas referências a renomados autores como Gustav Klimt e Egon Schiele, artistas que aparecem com frequência na narrativa de Isabela, personagem principal.

Apesar de ser um interessante recurso, as referências são demasiadas, e em alguns momentos podem ser bastante incômodas ao leitor não familiarizado com o mundo das artes. Além disso, esse ‘estilo’ que inclui muitas referências pode dar um ar equivocadamente pedante à autora, exigindo do público um repertório erudito para a compreensão de detalhes e sutilezas da história. É louvável, contudo, a tentativa de descrever as duas principais obras citadas que

Schwarzhaariges Mädchen (Schiele)

são parte do cerne da loucura da personagem Isabela, que em um delírio julga ser a Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt.

Ademais, a narrativa trata de um drama interessante – uma psicóloga que tem na família diversos casos de suicídio se vê obrigada a pedir licença de seu trabalho para tratar dos próprios macaquinhos no sótão. Isabela é uma profissional competente, com uma razoável ética, mas que não glamuriza a profissão. Ela não segue, por exemplo, a recomendação de não apelidar jocosamente seus pacientes – durante a narrativa, ela faz referência a muitos pacientes, que são denominados de acordo com uma característica marcante: o perseguido, o Pirata do Caribe, a Madame Bovary, e assim vai,

Mas o desfecho do romance decepciona. Sem muitos spoilers: a loucura de Isabela dá a impressão de ser muito ‘branda’ e superficial, e não existe solução para a sua ilusão de ser a Baronesa. A personagem não encerra a narrativa como uma louca internada em um hospício, tampouco é ‘curada’.  Como diz o ditado, de louco todos temos um pouco. E, aparentemente, para Paula Parisot, um pouquinho de ilusão não faz mal a ninguém, e pequenos delírios podem ser, sim, completamente normais.

Gonzos e Parafusos
Paula Parisot

Editora Leya
R$ 34,90


* Essa resenha foi feita a convite de da assessoria de comunicação da autora

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Uma opinião sobre “E um pouquinho de loucura, é normal?

  1. Olá, Jacqueline!
    Pesquisando sobre meu possível tema monográfico (a vida da língua entre o mundo virtual e o real…), cheguei a seu blog. Então, me deparo com este assunto sobre o qual sempre gostei de pensar.
    Sou clariceana e, inevitavelmente, leio suas obras relacionando-as à sua vida; pelo tanto de si que ela deposita em suas máximas…
    Enfim, bacana o texto! E a dica sobre o livro foi muito bem-vinda! =)

    Abraço.

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