Como falar sobre o que você não leu

A gente gosta sempre de culpar o excesso. “São tantos links, tantos emails, tantas matérias, artigos, jornais, revistas, livros…” É, realmente, são muitos, mas o que também não ajuda nem um pouco é a  “síndrome neurótica da ignorância” que as pessoas desenvolvem, achando que não sabem o suficiente ou, pior!, que o vizinho sabe muito mais e assim ficam se sentindo em desvantagem.

Um dos maiores aprendizados que faltam hoje em dia é o saber lidar com o “não saber”. Ao se perceber ignorando um determinado assunto, muitas pessoas entram em pânico e acabam tendo decisões extremadas: ou saem para conseguir todos os livros acerca do tal assunto que não conhecem, ou desistem, pensando ‘isso é muito complicado pra mim’.

A simples consciência sincera de não saber sobre algo, em princípio, já é um conhecimento. Parece absurdo, mas delimitar as “fronteiras” do próprio conhecimento evidencia o saber individual. Por isso, não saber não é motivo de pânico, e sim uma questão de demarcar limites.

80488340E a verdade é que o  mundo tá atolado de informações, e você provavelmente não vai ter tempo de consumir boa parte delas, fato.  E não dá pra entrar em desespero todos os dias.  Mas, ainda assim, é possível conhecer e se inteirar sobre os assuntos sem, contudo, precisar estar em cima do lance o tempo todo. E é  disso que fala Pierre Bayard em seu livro “Como falar dos livros que não lemos”.

Professor de literatura francesa da Universidade de Paris, Bayard liberta aqueles que se sentiam contraventores das convenções acadêmicas ao falar sobre algo que não leram por completo. Segundo o professor francês, muitas vezes não é necessário ler um livro completamente para poder falar dele. Tanto porque, com o volume de publicações anuais, seria humanamente impossível ler todos os livros dos quais temos que falar em algum momento da vida. Bayard afirma que mais do que ler todas as páginas, é preciso saber contextualizar a obra, relacioná-la com outras, interpretá-la segundo critérios pessoais, enfim, conhecê-la e não apenas consumir parágrafos.

Apesar de poder ser mal vista por críticos literários e acadêmicos, que tem suas profissões baseadas no saber sobre livros, a obra do professor francês lembra que o que faz um bom crítico literário é experiência de vida que faz com que ele possa distinguir rapidamente um bom livro de um mau livro. Ele relembra uma citação atribuida a Oscar Wilde, que dizia que apenas 6 minutos de leitura bastavam para julgar um livro como bom ou ruim.

O principal mérito do Bayard em “Como falar dos livros que não lemos” é desmistificar o pré-suposto de que para falar sobre livros é preciso ser um especialista, com anos de prática e pesquisa, além de milhares de “livros-lidos” no currículo. Pouco vale uma estante lotada de títulos se não se não existe a capacidade de interpretá-los e relacioná-los entre sí. Afinal, um dos motivos de lermos tanto é ter bagagem para entender outros tantos livros.

O autor também ressalta que a interpretação literária depende de muitos fatores, como o repertório individual e a cultura na qual o indivíduo se desenvolveu, e nenhuma delas estará errada se houver uma boa argumentação. Boa argumentação, aliás, é o que não falta ao professor francês, além do bom uso de analogias e exemplos literários para elucidar seus pontos: ao falar sobre um determinado argumento, Bayard ilustra a situação usando obras literárias, personagens cinematográficos e situações cotidianas, o que torna o livro ainda mais rico e interessante.

Leitura recomendada, em especial para os universitário da área de humanas, potenciais alvos da síndrome neurótica da ignorância.

como_falar_divComo falar dos livros que não lemos
Pierre Bayard
Editora Objetiva

208 páginas

R$32,90

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5 opiniões sobre “Como falar sobre o que você não leu

  1. taí uma boa sugestão de leitura, vai pra minha lista. e a síndrome da ignorância é um fato, existe uma ânsia pela informação completamente (a ânsia) injustificada. um ex.: ontem no trabalho ficamos quase um dia inteiro sem acesso à internet, por um problema no provedor. foi uma maravilha, nos livramos de um monte de inutilidades, pudemos nos concentrar no nosso trabalho e fazê-lo bem melhor, acredito eu, sem as distrações inúteis da internet. não me entenda mal, sou um entusiasta de primeira hora da internet, dos celulares, dos iPods etc, mas existe seguramente uma absurda imposição de necessidades, decorrente, creio, do afã dos empresários que querem ganhar dinheiro com a grande rede e se esforçam por controlá-la, moldá-la, descobrir-lhe tendências. Acho um saco. Desvirtuaram as coisas boas (estou saudosista hoje). Foram dizer que a internet é o lugar onde tá o dinheiro e agora a gente tem que aturar um monte de porcaria. abs

  2. Os argumentos de autoridade são particularmente difundidos e aceitos como meios de contornar esse problema. Títulos acadêmicos, currículos e graduações, por vezes, substituem ou são conditio sine qua non para analisar o mérito de uma idéia. A premissa, nesse caso, é dar primazia à forma em detrimento do conteúdo.

    Sócrates vive.

  3. Gostei do post! Acho interessante que possamos acompanhar as obras, mas não ler todas. Assim como podemos acompanhar os jogos olímpicos pelos noticiários sem ter visto tudo na integra. Porém, entendo que falar sobre algo caiba a quem entende, mesmo a pessoa tendo lido (ou assistido) tudo ou não. Para os leigos, é uma possibilidade de selecionar melhor o que se quer ler no precioso tempo.

    O que me deixa indignado são livros que giram sobre uma ou duas idéias (tô quase citando um nome, mas é segredo). Estes livros eu faço questão de não ler, pois bastaria uma boa matéria no jornal para expressar estas idéias.

    • @Camilo,
      Realmente vc tem razão, e eu concordo. Não sou contra a leitura completa, apenas acho que ler TUDO que é indicado, de cabo a rabo, é humanamente impossível. Por isso acho que um dos grandes talentos dos especialistas é saber contextualizar e falar sobre determinado livro ou obra ou autor sem, contudo, ter que consumir todas as linhas produzidas acerca do assunto.

  4. eu li todo o post … mas no final eu fiquei pensando, “será que ela leu o livro?” hehehehe

    muito bom essa discussão ainda mais para viciados em livros como eu

    t+

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