Marzão Digital

Antes era o GeoCities.

O cidadão ia lá, criava uma página com um determinado conteúdo e esperava que quem buscasse no Cadê?, Yahoo ou AltaVista fosse parar ali. Achar esse conteúdo, entretanto, era uma questão de sorte, já que as buscas não eram tão relevantes quanto são hoje, e muitos dos melhores links recebíamos dos amigos.

Daí surgiu o Google, e no sétimo dia ninguém mais usava o Cadê.

Ele era mais relevante, rápido e clean. Provavelmente foi a partir dele que a maioria das pessoas descobriu os blogs, amplamente conhecidos na época como diários virtuais. Mas acima de serem diários virtuais, os blogs tornaram-se ferramentas práticas para publicar qualquer tipo de conteúdo de forma simples, já que os editores WYSIWYG eram mais usáveis do que atualizar um documento html. Com o tempo, ao invés de diários, os blogs passaram a ser reconhecidos como plataformas de publicação, que se tornaram imensamente populares, ajudando a aumentar ainda mais aquele já enorme número de informações disponíveis na web. Haja Google pra indexar tudo isso.

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E nesses tempos onde ‘todo mundo pode ter voz’  somos cada vez mais bombardeados por informações, em uma velocidade e volume jamais vistos antes. Obviamente, é impossível absorver todos esses dados, e é aí que começam os problemas. De que adianta ter um mar de informação disponível se não há tempo para ‘consumir’ tudo?  Seria o mesmo que assinar dois jornais diferentes e três revistas e querer ler tudo de cabo a rabo: não tem como.

Assim, pela simples impossibilidade de consumir toda a informação disponível estamos nos tornamos seres cada vez mais “filtradores”.

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Os ‘Bob Esponjas’ Digitais: filtrando conteúdo

Cada um vai aprendendo, ao seu modo, a melhor forma de selecionar as informações. Isso já funcionava desde os jornais, quando se escolhia qual matéria ler por completo ou apenas a manchete. Com a popularização dos meios de comunicação, esse processo de seleção passou a ser mais automatizado, com o uso de palavras-chave, assuntos ou a partir do que outras pessoas selecionaram para compartilhar. É como se virássemos bots, varrendo rapidamente textos em busca de algo interessante.

A criação e adaptação de métodos pessoais de seleção de conteúdo permite que informações consideradas irrelevantes sejam evitadas e possibilita o desenvolvimento de um senso crítico aguçado e a limitação do número de informações que cada pessoa efetivamente ‘consome’ para um valor razoável e absorvível. Entretanto, como consequência dessa necessidade de ‘selecionar para consumir’, muitas vezes informações importantes são perdidas no caminho. Às vezes isso acontece porque a seleção de cada um é feita por um sistema experimental – na base da tentativa e erro – e pode deixar muita coisa passar, ou pelo fato de algumas pessoas construírem métodos inflexíveis, que acabam gerando um ‘isolamento’, onde perde-se algo bom por não estar dentro do atual critério de seleção.

E é por isso que cada vez mais os sistemas de compartilhamento de informação crescem em popularidade. As pessoas estão criando o hábito de compartilhar o que leem e veem, e esse hábito tem sido valorizado por quem considera crucial estar por dentro, mas nem sempre tem tempo de filtrar as informações que lhe interessam.

É daí que surge o sucesso de serviços como o twitter, onde o que vale é seguir pessoas que façam filtragens relevantes para quem segue: além de manter contato com alguém interessante, também economiza-se o tempo que levaria pra selecionar as informações.

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O número de informações disponíveis só tende a crescer, mas as horas do nosso dia serão sempre as mesmas. Compartilhar informações, fazer marcações, tentar ao máximo se organizar em torno de tags e categorias, followers, emails, links é a forma que essa geração que é soterrada de informações encontrou para tentar absorver e não enlouquecer.

Com o tempo e a experiência, os métodos pessoais de filtragem vão se aprimorando, de acordo com a situação. Quanto menos tempo disponível tivermos e quanto mais informações forem jogadas nesse marzão digital, mais exigente serão os métodos de filtragem. Seremos cada vez mais seletivos: seguiremos determinadas pessoas, teremos mais filtros em nossas caixas de email, leremos menos blogs, jornais ou notícias. Vamos dar bastante valor à seleção de pessoas relevantes em nosso meio.

E, principalmente, vai ser cada vez mais necessário ser efetivamente relevante para chegar até nossos olhos e ouvidos.

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6 opiniões sobre “Marzão Digital

  1. Eu não sei se a maior dificuldade da Modernidade Líquida (Bauman) seja a coação de informações, uma vez que, como o supracitado, somos bombardeado por elas.

    Eu acho que o maior desafio, hoje, é pensar em qual é a utilidade da informação. Já parou para pensar o tanto que consideramos relevante e no fim é supérfluo?

    Eu acho que não procuramos as “informações relevantes”, e sim a “relevância das informações”. E esse processo é menos eficiênte.

    Lemos algo, memorizamos o que achamos razoavelmente necessário, e tentamos que aquele conteúdo/conhecimento seja pragmático.

    Deixo uma provocação: a necessidade gerou a informação, ou a informação gerou a necessidade?

    • André,
      Bom ponto.

      Eu acredito que buscaremos cada vez mais a “relevância das informações” principalmente por falta de tempo de consumir.
      A princípio, achar diversas coisas interessantes e importantes é normal, mas a partir do momento em que o tempo fica escasso, é preciso selecionar melhor essa “importância”.

      • Entendi sua resposta como um “esparramamos todos os feijões, e então selecionaremos os melhores”.

        E é uma prática inteligente.

        Agora entra os profissionais de conteúdo informacional em entenderem o mais relevante, difundindo o mesmo. Sem perdas. E mais rentável.

        E aos profissionais de TI, desenvolverem e pensarem tecnologias que facilitem a “escolha dos feijões”.

        O Twitter ilustra um pouco uma das formas de coações. Poderíamos chamar de “coação social”, uma vez que o relevante é dissipado de acordo com critérios pessoais, mas que sejam de interesse coletivo. E nunca o contrário.

  2. Não sei se ainda é possível considerar a internet como prelúdio da efetiva e irrestrita liberdade de informação e opinião. Tenho dúvidas sobre como considerá-la porque parece-me que ela já atingiu esse objetivo de modo completo. Hoje, com o advento dos blogs, qualquer um pode veicular suas opiniões sobre o que bem entender sem necessidade de outro canal funcionando como intermediário. Não só. Diferente de mídias impressas como o jornal, esses textos não terminarão no lixo ou reciclados, mas permanecerão preservados no espaço virtual. Esse, na verdade, é um dos grandes méritos do “mar digital”. O texto publicado não tem limite em sua vida, pode ser lido tanto no dia da publicação como anos depois. Sua existência não depende do leitor cuidadoso que guarda as páginas de uma edição qualquer em seu baú.

    O novo paradigma da informação também termina refletindo e refutando idéias anacrônicas de regulamentação. Em tempos que os direitos e garantias fundamentais da manifestação do pensamento e da liberdade têm sua eficácia levada ao extremo graças à internet, propostas como regulamentação que restrinja o exercício do jornalismo não podem nem poderiam florescer.

    O volume de opções de informações disponível é, penso, ponto positivo. Peca-se pelo excesso, preço não tão ruim.

    • Raphael,
      Concordo com vc: melhor ter excesso e poder selecionar dentro dele, do que a escassez.

      Entretanto, não acredito que a web consiga realmente manter as coisas sempre acessíveis. Muitas vezes perdemos informações pela falta do hábito do “leitor cuidadoso”, que guarda a informação. Guardamos links, e por vezes eles “quebram”, as informações mudam de lugar e não existe redirecionamento, e nesse ponto acabamos decepcionados, pois ao tentar guardar a informação, acreditando na perenidade da rede, acabamos sem ela.

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