Livros: a estranha lógica editorial

Não raro a gente ouve falar que o brasileiro lê pouco, que os jovens não costumam gostar de livros, que falta cultura nesse país, essas coisas. Eu inclusive já tentei pesquisar e falar mais sobre o assunto, sempre apostando que a gente lê sim, e muito, mas não nos livros. E eu nunca vi ninguém conseguir explicar, por A + B, porque os livros são tão caros e tão inacessíveis nessa terra tupiniquim.

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Encontrar explicações plausíveis era tão difícil, tão complicado, que eu resolvi pesquisar por conta. Fui atrás de editoras famosas, procurei falar com o atendimento das mesmas e questionar porque o valor de venda dos livros é tão alto. Cheguei até mesmo a perguntar à editoras internacionais, com o intuito de fazer uma comparação – afinal, todo mundo já ouviu falar pelo menos uma vez na vida que “livros norte-americanos em paperback são muito mais baratos que as edições nacionais”. Mas foi tudo em vão, pouquíssimas delas responderam; algumas agradeceram o contato, outras me encaminharam a outros órgãos responsáveis (que também não responderam).  Fiquei decepcionada duas vezes, uma por não conseguir nenhum retorno satisfatório, outra por continuar com a minha dúvida.

Até que um dia, em um encontro despretensioso com o professor Paulo Franchetti, presidente do conselho editorial e diretor-executivo da Editora da Unicamp, tive a oportunidade de conversar com ele sobre algumas questões editoriais que me intrigavam, e além de respostas, tive um interessante panorama do processo de edição e publicação de livros no Brasil, o que eu acho que vale muito a pena compartilhar.

Como todos sabemos, ser brasileiro, além de conhecer samba e carnaval, subentende também o entendimento de alguns outros conceitos como corrupção, miséria, desigualdade e livros caros. E como a gente acaba sempre culpando a pessoa errada, toda vez que pensamos em livros caros maldizemos as editoras, usando todo o nosso repertório: corruptas, aproveitadoras, blablablá. Acontece que a culpa, na verdade, é das LIVRARIAS. Sim, aquela bonita livraria, com café e internet, música ambiente e tudo o mais está extorquindo de você, cobrando caro pelos livros que, normalmente, custam METADE do que você pagou.  Eu explico: As livrarias não adquirem os livros, elas os vendem por consignação, ou seja, os livros ficam na estante e, quando vendidos, o valor do livro é revertido para a editora. Isso tudo com a pequeníssima margem de 100% de lucro em cada exemplar. Pode começar a pedir compulsivamente descontos nas livrarias, sem dor na consciência. Elas podem, e você não está, de forma alguma, fazendo com que tenham prejuízo.75461882

E tem mais: além de terem 100% de lucro, as livrarias cobram aluguel da estante onde os livros vão ficar. E por centímetro. Avalie você o quanto deve custar para uma editora para manter um Ulysses, de Joyce, em uma estante.  E – pasmem – quando um livro fica por muito tempo na estante sem ser vendido, as livrarias retornam esses livros para as editoras (que pagaram o aluguel da estante!), alegando que o livro não circulou. Isso explica a seção de best sellers, todos os clássicos, e o porquê de não encontrarmos livros que não estão no circuito comercial para pronta entrega, apesar das livrarias estarem sempre dispostas a fazer encomendas.

Se você, como eu, ficou surpreso e estarrecido com tudo isso, deve estar agora pensando em como poderíamos solucionar esse problema,  como por exemplo barateando o custo do livro, trocando a impressão em folha normal por papel jornal, essas coisas que encontramos nas edições paperback norte-americanas. Pois bem, o triste é que isso não é possível. Hoje em dia, o custo de um livro já é bastante barato, praticamente equivalente ao paperback americano, só que com melhor qualidade.

Segundo o professor Franchetti, o que acontece nos Estados Unidos é que sempre a edição em paperback é lançada depois da edição de luxo, com capa dura e costurada. Depois de toda essa tiragem ser vendida é que se publicam os livros em paperback, que basicamente é o livro em capa mole e com interior em papel jornal. Costumeiramente, as edições de luxo nos Estados Unidos acabam rápido, porque boa parte delas é adquirida pelas bibliotecas americanas, devido à sua durabilidade, e por colecionadores. No Brasil, nossas edições de luxo são lançadas apenas em algumas situações, como em comemoração a algum centenário, e têm uma tiragem bem pequena. E o nosso “paperback” tem um papel de melhor qualidade, pois existem subsídios do governo que barateiam o papel para livro, de forma que ele fica mais viável que o papel jornal.

Resumo da ópera: livro no Brasil é caro porque as livrarias apelam nos preços, e temos o nosso próprio paperback, que chamamos de capa-mole, que é muito melhor, em termos de qualidade, do que o paperback norte-americano.

Tudo isso me fez pensar em duas coisas: primeiro, de nada adianta termos e-readers, se vamos continuar vendo as livrarias lucrarem verdadeiros absurdos em cima de nossos livros; segundo, se um dia eu quiser ganhar muito dinheiro, vou abrir uma loja online e adquirir os livros das editoras, vendendo com 50% de margem de lucro. Mas aí, provavelmente, vão me tirar do mercado a força.71553618

Portanto, é hora de parar de reclamar que brasileiro não tem cultura, que não lê livro, que não se esforça. A gente tem toda a cultura que a máquina de xerox deixa a gente alcançar. Assim, acho que já passou da hora de ter alguma medida que faça com que as livrarias fiquem mais sensatas, e parem de querer fazer fortuna em cima de quem quer “fazer” cultura.

>> Saiba mais sobre o assunto no artigo “Entenda a lógica estúpida do mercado editorial em 7 tópicos“, de Alessandro Martins

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23 opiniões sobre “Livros: a estranha lógica editorial

  1. É difícil imaginar brasileiro lendo. Não faz parte da cultura do povo. Quando muito você encontra alguém que leia dois ou três livros de auto-ajuda por ano, coisa que já coloca o sujeito acima da média. Ou então aquele que lê semanalmente um par de revistas de fofocas e também é incluído nesse número. O problema não é desgraça exclusiva dos mais humildes, as universidades, por exemplo, estão repletas de gente assim.

    A teoria do professor Franchetti não explica os altos preços na internet. Costumo comprar pela Saraiva ou Cultura, e isso não melhora tanto os preços. Por vezes o livro tem o mesmo preço tanto no site da editora como no da livraria. O último caso em que comparei uma edição nacional com uma estrangeira, se não me engano, foi o God Delusion do Dawkins (já há algum tempo). A edição de luxo americana tinha capa dura, precisava ser remetida de outro país e ainda assim terminava alguns reais mais barata que a nacional (que não tinha capa dura).

    De isenção fiscal os livros já desfrutam, mesmo assim os preços não mudam. Talvez a explicação do Franchetti somada aos baixos números de cópias que o mercado editorial brasileiro – pela demanda pequena – pode dar lume seja a resposta.

    “Não raro a gente sempre ouve flar que o brasileiro lê pouco, que os jovens não costumam gostar de livros, que falta cultura nesse país, essas coisas.” O que basicamente é verdade. Só é preciso responder se brasileiro lê pouco porque os livros são caros ou se os livros são caros porque brasileiro lê pouco… Penso que a segunda alternativa é a mais provável.

    • Raphael,
      Seus questionamentos são interessantes.
      Eu tenho minhas próprias teorias, todas elas falíveis, claro.
      Mas imagine comigo que as lojas online são uma exceção à regra, e exatamente por isso talvez elas sejam forçadas a fazer conforme a “tabela” das livrarias.

      Bom, acho que é nesse ponto que eu tenho que colocar algumas informações relevantes, que comentaram comigo via email ou MSN depois de eu ter publicado esse texto.

      Um amigo, Gabriel Suzuki, me alertou que talvez eu estivesse sendo maniqueísta demais. E ele tem razão. Mas eu ainda achava que grande parte da culpa era das livrarias, que lucra(va)m horrores nos livros – se vocês quiserem dados numéricos, o artigo do Alessandro Martins tem esses números.

      Acontece que uma outra amiga, Karen Mileris, que atualmente trabalha na Livraria Cultura, me contou que algumas editoras tem um preço “tabelado” para os livros. Algo como aquela sugestão de preço que vêm nas caixas de balas, sabe?
      “Livro X deve ser vendido pelas livrarias por Y reais”.

      Pois bem, a partir do momento em que algumas editoras “sugerem” preço para as livrarias, aí sim a minha argumentação soa muito – e muito – maniqueísta.

      Depois, comparando as informações que eu obtive, as que me contaram e as que o Alessandro Martins me enviou – como, por exemplo, que os livros das grandes editoras não ficam em consignação, eles são comprados pelas livrarias (informação inclusive confirmada pela minha amiga Karen) – fica a conclusão que o preço elevado dos livros no Brasil se deve a uma série de fatores. Parte deles são responsabilidade das editoras, outra parte das livrarias.

      Pelo jeito a melhor forma de democratizar a leitura, por assim dizer, vai ser acabar com o intermediário “livro”. Eu sei que isso pode soar estranho, mas eu acredito na literatura independente do livro. E aí, no dia em que os intermediários e atravessadores forem desaparecendo, quem sabe será mais fácil acessar uma boa literatura e, conseqüentemente, ver mais brasileiros lendo por aí.

      Fica sempre a esperança! =)

      Abraços!

  2. Olá!

    Depois que vi seu blog no suporte do Blogblogs, achei muito legal seu post e ele virou um dos destaques de hoje aqui na home do Blogblogs!

    Confira!

    Abraços,

    Equipe Blogblogs

    • Oi Vânia,
      Que bom que vocês gostaram!
      Fiquei lisonjeada!

      Abraços!

    • Olha, há alguns anos [poucos], colocaram no Metrô do Rio de Janeiro máquinas pra vender livros. Foi um sucesso tão grande que a empresa não aguentou e teve que encerrar as atividades. Ela não conseguia repor os livros comprados e as máquinas ficavam vazias. Pelo menos é a lenda que circula por aí.

  3. Jacqueline,

    Parabéns pela iniciativa em colocar estão questão em discussão.

    Talvez pelas não respostas recebidas formulastes um pensamento da forma mais fácil e mais lógico para quem esta de fora do processo.

    Primeiro temos que entender a diferença entre livraria e editora. A livraria em momento algum participa da elaboração do preço do livro, todo o processo desde a negociação da obra com o autor até o livro chegar ao ponto de ser vendido é de única responsabilidade da editora. Outra diferença fundamental é de que a editora, em sua maioria, só fecha negócios com livros que vão gerar lucros, por isso a ausência cada vez maior do escritor desconhecido e do livro de pouca rotatividade. A Livraria que tu te referes é a livraria que chamamos de Livraria de Rede, sempre muito bem localizada, de preferência em shopping, e que tem na formatação de sua organização um pensamento de supermercado onde dependendo da visibilidade do espaço, este tem valor diferenciado. Neste espaços a leitura literária ou não tem sabor de evento e não de responsabilidade social de dar ao livro o seu verdadeiro valor que vai além do econômico.
    O Livreiro na sua forma tradicional, que existiu no Brasil até a ditadura militar e que foi perseguido e extirpado por ela, este desapareceu e so foi sentido a sua falta em fins dos anos 90 com a aproximação do século, chamado, do conhecimento.
    As livrarias tradicionais desapareceram,fecharam suas portas dando lugar as livrarias que vendem o livro didático, religioso e as que se avolumam em shopping vendendo livros de altarotatividade, os outros ficam a ver navios.
    Se o negócio do livro fosse tão bom para o livreiro nos não terpiamos um crescimento tão grande de abertura de editoras em detrimento ao de livrarias. O Brasil possui mais de 5.500 municípios e só existem 2.100 livrarias, contando com as de Rede, onde 60%, aproximadamente, delas estão no sudeste, o resto do pais fica com 40%. Para a ONU o país teria que ter 1 livraia para cada 10mil habitantes. Voce não vê nenhum pais desenvolvido sem leitura, sem livrarias, sem bibliotecas. E quando falo de leitura não me refiro a forma simples de decifrar códigos e sim de interpretar o que está vendo, do que está lendo, e isso só se tem com formação, com acesso. Quando falo livraria me refiro a lógica da venda no varejo, não necessariamente de forma presencial, mas pode ser virtual.
    A falta de compreensão sobre o que seja Livraria é imensa, me deparo todo dia quando me perguntam, qual a minha profissão. E eu respondo sou Livreira. logo em seguida me questionam. De qual editora mesmo?
    Sou de Fortaleza, a minha livraria é pequena, é de bairro e eu a apresento sempre como uma livraria comprometida, pequena e embaixo de um pé de jambo num quintal, existe há 53 anos.

    Jacqeline, obrigada por este espaço. Muitas outras questões não foram levantadas. Se tiveres interesse tenho alguns artigos sobre o tema.

    beijos

    Mileide Flores

    • Olá também sou de Fortaleza Mileide, qual o teu bairro? Sim adorei essa discussão, mujto rica.

  4. o site submarino tá com uma promoção bacana…
    tem vários livros por 9,90!

  5. Estou com a Mileide. Colocar a culpa nas livrarias é injusto. Se o livro no Brasil é caro, culpa das livrarias não é, até porque as grandes redes volta e meia fazem boas promoções e as livrarias pequenas dão descontos a professores e a clientes habituais. Já trabalhei em livraria e sei do que estou falando. A coisa não é tão simples assim e livreiros não nadam em dinheiro.

    • Rafael,
      Concordo. Como disse em comentário acima, acabei soando mais maniqueísta do que devia.

      Ainda assim, os livros no BR continuam caros a tal ponto que se tornam de difícil acesso. Se bobear, nem em sebo rola comprar.

  6. Muito, muito bom o texto! Muito mesmo.

    Agora, que anda um pouco afastada de bibliotecas e tendo de comprar livros, acabo dando preferência aos da LP&M, edições de bolso, com livros bons e a preço bem mais acessiveis. A gente aperta mais o olho pra ler, mas vale a pena…

    Obrigada pelo texto esclarecedor.

    Um abraço

  7. Jacqueline Lafloufa,

    Venho de família de “livreiros” (como se usava coloquialmente) e vi muita coisa acontecer neste ramo. Adorei o seu post, pois coloca de maneira clara o que está ocorrendo neste ramo editorial. Houve um tempo em que os empresários da área de livros liam os textos antes de comprá-los, conheciam o conteúdo etc. Tudo bem, eram outros tempos.

    O filme Mensagem para Você, com Tom Hanks e Meg Ryan, mostra o sinal dos tempos para o mundo editorial. Mas ao contrário do que ocorre aqui, nos EUA, mostra o filme, o desenvolvimento das superstores foi positivo para trazer livros mais baratos. Sou a favor deste desenvolvimento e acho que o romantismo de ter a “loja da esquina” não cabe no mundo de hoje, criativo e renovador.

    O Brasil ainda é um país sub-desenvolvido. Em minha área de trabalho (urbanismo) e outras, temos provas mais que concretas que vivemos em atrasos claros. Um deles é o problema da leitura. Não me surpreende que temos destaque em acessos à internet, mundialmente. De alguma maneira teríamos que extravasar nossa fome de conhecer e trocar. Um professor quando dá um livro para ler, tem o constrangimento de saber que os alunos terão que comprá-los. Nossas bibliotecas precisam ser revitalizadas, muita gente guarda livros em casa e não empresta ou doa. Dificilmente lemos o mesmo livro duas vezes. Muitas ações podem ser tomadas para estimular a leitura.

    A leitura é um hábito sensacional, pois é barato (se compararmos com o custo benefício de outros divertimentos), vc pode ler em qualquer lugar que tenha luz elétrica, dá para reler, se emocionar, cria um ambiente interno enriquecedor, ajuda em vocabulário, distribuí o conhecimento… Tudo bem que hoje, chovendo como está, estou chovendo no molhado. Mas no fundo o que queremos é isso, que todos tenham acesso à este hábito.

    Agradeço pelo seu blog, muito bonitinho e bem feito. Boa sorte em sua vida.

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  13. Essa história dos livros daqui terem uma qualidade melhor do que os dos EUA, eu já sabia . Agora que as livrarias alugavam o espaço das estantes, por centímetro, eu nunca iria imaginar.
    Talvez esses sejam os fatores principais dos livros serem tao caros, mas tem muitos outros fatores.

  14. Mesmo correndo o risco de fugir da questão, quero dar um pitaquinhozinho a respeito da questão do acesso aos livros.
    Camilo toca numa questão importante, que é a revitalização das bibliotecas. Na escola onde trabalho (e em muitas outras, com certeza), temos turmas de terceiro ano do Ensino Médio e muitos alunos prestando vestibulares que pedem leitura de uma lista de livros. Disponibilizamos avisos pela escola informando que a biblioteca possui todos os títulos pedidos. Não houve procura pelos livros, mesmo havendo uma exigência para as provas. Na minha opinião os alunos já se habituaram ao modelo tradicional da biblioteca, pouco atrativo, e muitos provavelmente lerão resumos. Outros sequer vão ler.

    É bastante pertinente pensar sobre os hábitos de leitura do brasileiro e o impacto dos preços dos livros sobre isso, mas as bibliotecas seriam excelentes para suprir a necessidade de leitura e informação a que os livros caríssimos não conseguem atender. Entretanto elas não o fazem, por uma série de motivos.

    Ótimo post, parabéns!

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