Que estratégias usar para escrever bem?

Há quem ache que escrever é fácil. É só sentar na frente do teclado e digitar. Ou pegar papel e caneta e desembestar a escrever. Mas não é bem assim, ainda mais para quem escolhe fazer da escrita a sua profissão.

Pensando nisso, tentei refletir sobre as minhas estratégias para escrever. Bem lembra a capa do Substantivolátil a frase de Hemingway: “todo primeiro rascunho de um texto é uma merda“. Então como se faz para garantir o Jack Daniels das crianças a partir de algo que costuma começar ruim? Quais seriam as melhores estratégias para conseguir escrever bem?

Pra tentar saber mais sobre isso, entrei em contato com algumas pessoas que trabalham com escrita perguntando sobre suas estratégias pessoais para escrever bem. Para o Tiago Dória e o Michel Lent, o mais importante é a prática e a leitura constante; o Alessandro também acredita que ler ajuda, mas o essencial, segundo ele, é gostar do que se faz, e fazê-lo com freqüência e disciplina; já para o Luli Radfahrer, acreditem, o melhor método é recriar a  fala. Ele diz que gosta de melodia na escrita, e que procura “escutar” seus textos, de forma que afirma que “escreve de ouvido”.

Fiquei muito contente de ter recebido resposta de todos eles, mas achei que a pergunta ainda podia render alguma coisa. Assim, questionei os participantes da BlogLista sobre suas estratégias pessoais de escrita. E, como em toda lista, deu quebra-pau: uns achavam que ler não era essencial, outros argumentaram com uma frase de Monteiro Lobato, que diz que “quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê”.

Discussões acaloradas à parte, dá pra tirar algumas dicas básicas, como ler bastante (mesmo que isso não seja condicional para se ter uma boa escrita), tentar seguir um mínimo de gramática (coisa que qualquer corretor ortográfico faz por você) e não se esquecer de sempre ter algo para guardar as suas idéias e rascunhos. Vale muito a pena.

Entretanto, eu particularmente tenho um método semelhante ao do Conrado Navarro, do Dinheirama. Eu gosto de pensar no tópico, deixá-lo fermentar na cabeça, no papel, onde for; buscar informações, refletir, e depois na hora de escrever, fazer primeiro um brainstorm de tópicos e ordená-los, de forma a criar uma coesão mínima de começo-meio-e-fim. Jobson Lemos também citou algo importante: elimine o máximo de floreios desnecessários. Não faça do seu texto algo trabalhoso de se ler, permita que ele tenha ritmo, deixe que ele seja fácil e gostoso de ler.

Pra você que é metódico e adora uma listinha, lá vai a lista Navarro-Lemos de como escrever bem:

  1. Brainstorm: Escreva tudo que lhe vier à cabeça, mesmo que seja de forma desordenada. Isso permite que as idéias não escapem no processo de classificação e ordenação do seu pensamento
  2. Liste suas referências: a partir de onde você tirou a sua idéia? quem já falou dela antes? Quais são as suas fontes
  3. Início-meio-e-fim: ordene os seus pensamentos. Encadeie as informações, de forma a manter a fluidez do texto.
  4. Deixe as firulas de lado: não seja extremamente didático, não se perca nos assuntos paralelos. Elimine o que for supérfluo. Tenha um foco. Floreios são apenas floreios, e você precisa concluir o que estava falando.
  5. Verifique a ortografia: não custa nada passar um corretor ortográfico ou dar uma segunda (ou terceira ou quarta) olhadinha no texto. Não hesite em usar um dicionário se tiver dúvida sobre alguma palavra. Vale a pena checar.
  6. Texto também é ritmo: tente usar a técnica de Luli Radfahrer! Leia o seu texto em voz alta e veja se ele é melodioso. Tome cuidado com o uso de vírgulas, pontos, exclamações e interrogações. Pior do que um texto com erros gramaticais é um texto mal pontuado.
  7. Keep Walking: tente manter a regularidade e a frequência de sua escrita. O exercício de escrever ajuda bastante a desenvolver o seu estilo, fazendo com que você escreva cada vez melhor.

E lembre-se: ler bastante ajuda, mas não é um critério decisivo para se escrever melhor. Por isso, não desista porque o seu primeiro texto ficou com cara de rascunho. Tenha em mente que, quanto mais se pratica a escrita, mais se sabe escrever.

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10 opiniões sobre “Que estratégias usar para escrever bem?

  1. Excelente! Parabéns pela lista. Na verdade, acredito que tenha me expressado mal. Sou um leitor voraz, tenho livros espalhados por quase todos os cantos – e um Kindle a caminho. E, ao ver o descritivo do Navarro, percebi que meu método é bem semelhante ao dele: um tópico fica amadurecendo durante dias na cabeça, para, ao sair, aí sim, ser escrito de ouvido.

    Parabéns pelo post. Vale o JD dos piás.

  2. parece um sonho, mas finalmente encontrei alguém na blogosfera que resolveu escrever/debater algo sócio-artisticamente útil. meu deus!
    ok!
    curso Letras na UFCG, sou redator jornalístico, escritor e poeta. sei que haverá sempre uma grande discussão a cerca desse assunto.
    mas, vejamos…
    é claro que ser um leitor assíduo ajuda bem mais do que quando não se lê nada, ou muito pouco. mas, saiba que ler demais não é uma regra para a boa escrita. é uma ferramenta de ajuda. é só saber que antes houve o(s) primeiro(s) livro(s) e o(s) primeiro(s) escritor(es). e, certamente, eles não tinham nenhuma biblioteca em casa, no entanto construíram grandes obras que perduram até hoje.
    porém, a leitura serve para você desenvolver técnica (não confundir com estilo… estilo é coisa particular). técnica é algo parecido com a habilidade de um jogador de futebol. ninguém consegue ser um pelé ou um maradona… ou driblar como um ronaldinho gaúcho driblava, porque eles desenvolveram uma técnica apurada. como? praticando, jogando e jogando e jogando. no nosso caso, lendo lendo lendo e escrevendo, escrevendo e escrevendo.
    mas só isso? não. tem outra coisa, essa muito contestada, mas também é fato: DOM.
    se você não tem o dom de escrever, meu rei… jé era!
    não se ensina a escrever, assim como não se ensina a desenhar, sem que você tenha a pré-disbonibilidade natural para isso.
    tem que amar escrever. tem que gostar de escrever, até mais do que de ler.
    às vezes eu fico meses sem ler um livro… muitos meses. mas, modéstia à parte, não perco o ritmo na hora de escrever.
    outro segredo é não se entusiasmar. é reconhecer quando você não escreve tão bem ainda, e precisa apurar sua técnica. nesse caso, os blogs são super perigosos. porque na blogosfera ninguém tem coragem de criticar, de apontar erros, de dizer que um texto está péssimo. todo mundo elogia todo mundo, e isso acaba iludindo o sujeito.
    pra finalizar, esse é um conselho mais estrutural do texto, aprenda a talhar o texto, recortar, enxugar. texto bom é o texto enxutinho. aprenda a tirar do texto o desnecessário, o enchimento de linguiça chato (somente o enchimento chato… porque tem aquele enchimento que é tão sutil que a gente nem liga). releia seu próprio texto várias vezes. em cada leitura você percebe o que não precisa estar ali ou o que precisa ser adicionado para melhor entendimento. a leitura tem que ser lisa, deslizante, nem um pouco cansativa, esqueça o rebuscamento, o enfeite exagerado.

  3. Luli,
    Obrigada!
    Na verdade eu gostei da idéia de fazer algo ‘de ouvido’: normalmente quando lemos (mesmo que em silêncio) sempre tem aquela vozinha interna que lê pra gente. Saber que um texto tem melodia pode mesmo ajudar a escrever melhor. Sem descartar, é claro, as toneladas de leitura diária, ainda mais hoje em dia, em que somos soterrados por informações.

    E idéias fermentando na cabeça também é outro ponto recorrente. Pra mim a idéia é simples: se fermentar e não estragar, pode virar pão.
    Senão, melhor descartar.

  4. Jocivan,
    Eu acredito que a leitura ajuda bastante na hora de desenvolver a escrita. É lógico que a prática é necessária, então escrever com frequência é outra grande ferramenta.

    Interessante você levantar essa questão do dom. Eu acredito que, realmente, precisa-se de uma pré-disposição para escrever, mas eu acho que é aquela frase do Einstein, sabe? 1% inspiração e 99% transpiração.
    Lógico que o dom conta. Mas já vi muita gente que detesta escrever fazer textos incríveis.
    Apesar de que ter o dom não significa exatamente gostar dele, não é mesmo?

    Em relação a suas dicas, eu vou tentar me policiar mais. Realmente, os meus textos normalmente são muito extensos, e eu preciso trabalhar mais nisso.

  5. Uma coisa que eu acho que enriquece mais a nossa forma de escrever é, ao ler um bom texto, procurar observar as técnicas/formas utilizadas pelo autor que te agradaram. Isso pode te dar boas ferramentas para escrita e peças a mais para compor o seu estilo…

  6. Adriano,
    Isso é certo: quanto mais lemos, mais assimilamos do melhor de cada autor. No fim, o seu estilo é uma composição de tudo aquilo que você viu e achou bom, e mais aquele toque pessoal que todo texto tem!

  7. Há pessoas que dizem que escrevo bem, eu também acho, embora seja lento no processo de criação porque gosto de dar um repasse no que já está pronto para verificar se as idéias estão bem encadeadas.
    As dúvidas também me fazem ser lento para escrever. Recorro sempre ao dicionário para saber se determinada palavra existe, como é escrita, etc. Sou meu melhor leitor. Leio o que escrevo uma, duas, três vezes, e nesse processo descubro erros de digitação ou melhoro alguma frase. É incrível como existem por aí textos com erros de digitação até no título! E ninguém conserta.
    Quando alguém chega no meu blog por pesquisa aproveito e leio mais uma vez. Só lamento que esses visitantes pesquisadores, que nem sempre acham aquilo por que vieram, saiam sem deixar um comentário, um muito obrigado. Como não quero incorrer nesse pecado, já que cheguei aqui por pesquisa, é que estou deixando esse pequeno comentário.
    Tenho recebido e-mails sobre o livro O Chefe, do Ivo Patarra, e fui olhar na internet como estava o assunto. É coisa antiga mas não na minha comunidade, então acho que posso publicar.
    Estou marcando seu blog no meu agregador esperando que possamos nos tornar amigos.

    Grande abraço

  8. Luiz,
    Fico feliz com o seu comentário.
    Eu também demoro as vezes para postar porque gosto de deixar o texto “descansar” antes de rever.
    É uma das estratégias para se escrever melhor, não é?

    Abraços!

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