O ‘falar difícil’ como forma de erudição

Quando se inicia a vida acadêmica, bem como a vida profissional, existem peculiaridades que são bastante estranhas. Incômodas, eu diria.

No trabalho, a quantidade de palavras em inglês para fazer menção a algo existente em português era enorme. Não se ajustava um relatório, se melhorava o “report”; fazíamos uma propaganda para o nosso “target”, não para o público alvo. E eu pensei que isso eram dialetos do mercado de trabalho.

Aí eu inicio a vida acadêmica e adivinha? Mais dialetos. Cada um tenta fazer do seu discurso o mais incompreensível possível, de forma a parecer erudito e estudado. Longe de mim ser a favor de um vocabulário restrito, mas o uso de um palavras rebuscadas em um discurso simples com uma conversa entre amigos é algo desnecessário. Pra mim, quem sabe mais é aquele que tem facilidade em fazer algo complicado parecer simples. E você percebe que só parece simples, porque exige muito conhecimento transformar algo complexo em básico. E aí reside o grande conhecimento da pessoa em questão.

Por isso, firmei esse objetivo na minha cabeça: se for pra ser algo complexo, rebuscado, erudito, que seja numa tese. Que seja num documento específico, num estudo direcionado. Não em conversas, discussões, situações cotidianas. Nessas, eu quero trabalhar uma forma de me expressar mais clara, objetiva e simples.

Afinal, pra quê complicar se podemos simplificar?

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3 opiniões sobre “O ‘falar difícil’ como forma de erudição

  1. “Pra mim, quem sabe mais é aquele que tem facilidade em fazer algo complicado parecer simples.”

    Perfeito. É justamente o que penso sobre o assunto. Já tive professores que usavam termos dificílimos. Se por um lado conseguiam convencer a maioria de que são cultos, por outros tornavam-se absolutamente incompreensíveis.

  2. “A clareza é uma gentileza do filósofo” disse Ortega y Gasset.
    Para muitos é mais fácil falar difícil que ser claro.
    Ser objetivo e conciso é árduo.
    Já usar jargão acadêmico é fácil e não requer prática.
    Normalmente a falsa erudição é usada como couraça para tentar elevar status na marra.
    “Vejam como sou foda, falo academicês quase sem sotaque!”
    Ok, existem assuntos cuja complexidade exige um cuidado grande com conceitos. Mas rigor não pressupõe afetamento.
    Sofri com isso no passado. Fico feliz que você tenha desmascarado a farsa logo no primeiro semestre!

  3. Para os falsos eruditos recomendo a leitura de “A arte de Escrever”, do filósofo Arthur Shopenhauer, em que distingue o sábio do erudito, sendo este, mesmo sendo verdadeiro, bastante c riticado.

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